Beto Valle - A GRANDE INSURREIÇÃO - Neve - Esportes de neve - Turismo de neve

Bariloche

Beto Valle – A GRANDE INSURREIÇÃO
Bariloche

A GRANDE INSURREIÇÃO

O ano era 1991, e havia nevado muito naquele inverno de Bariloche. Estava difícil de chegar no Cerro Catedral, a Bustillo – estradinha que leva da cidade ao centro de ski, na beira do lago – estava coberta com uma grossa camada branca que deixava tudo com um aspecto meio surreal, e todos queriam ir à montanha para curtir um belo domingo de sol e muito ski, naquela época ainda não existia o snowboard… de um jeito ou de outro, as pessoas foram conseguindo chegar, e a base do cerro foi-se enchendo de gente, todos esperando que os skilifts começassem a funcionar assim que o pessoal da manutenção conseguisse reparar os danos ocorridos com a tempestade da noite. Os restaurantes, cafés, bistrôs, lojinhas, tudo lotado, cada vez mais e mais gente esperando, olhando para cima, perguntando, comentando, achando isso e aquilo, aquele conhecido stress.

Eu havia recebido um grupo de clientes e amigos de Porto Alegre, eram mais de trinta pessoas, e estavam todos naquele clima de expectativa, os minutos passando e nenhuma novidade boa com as cadeirinhas, todas paradas, esperando a multidão. Pouco a pouco, foram perdendo a paciência e começaram a caminhar pela região, buscando algo legal para fazer e, enfim, aproveitar aquele dia fantástico que estava rolando. Depois de algum tempo, voltou um deles com a boa notícia: meio afastado e escondido, havia um aluguel de snowcats, aquelas motinhos de neve, que começavam a aparecer nos centros de ski da américa do sul – eram realmente raros naquele momento – e, no ato, levantaram uns dez, talvez doze, e foram, às carreiras, para a pista. Fiquei conversando com o resto do pessoal, alí perto dos skilifts mais um tempo, e resolví dar uma olhadinha no grupo dos snowcats, ver o que estava acontecendo… olhem só: o dono do negócio, um tipo gordo e ar cansado, havia explicado as regras para o aluguel, que incluiam um funcionário que ia no veículo da frente, que tinha uma haste e uma bandeirola vermelha, e os clientes em fila indiana atrás deste guia, andando devagar. Aliás, muito devagar, quase parando. O grupo, é claro, concordou com tudo, nenhum problema. Só que… alguns deles eram pilotos de competição (pista, rallye e kart), e os outros eram amadores entusiasmados, mas não menos loucos. O que se viu, foi inacreditável. Sairam todos em fila do stand, um montão de snowcats, num pequeno trecho que, após uma subidinha suave, fazia uma curva leve à esquerda e… iniciava o retão, que terminava numa curva de 90° à direita. No final da subidinha, começou a Grande Insurreição: o primeiro abriu para esquerda e ultrapassou o guia, nomaior pau, e todos – TODOS – sairam por todos os espaços possíveis para cima do atônito funcionário,passando por ele e entrando no retão em plena competição. Na curva-do-cotovelo, incrível, entraram3 snowcats embolados, se tocando lateralmente, era uma corrida de verdade. O dono do lugar saiu correndo para chamar a polícia, mas ele era gordo, lembram? A altitude, o ar seco, a neve fôfa, ocara ficou nos primeiros 50 metros e sentou num banquinho, desanimado. O funcionário não sabia o que fazer, e terminou assistindo comigo a corrida, acabamos torcendo juntos. Bueno, a coisa só terminou por falta de gasolina, devem ter sido umas cinco ou seis voltas, mas foi impressionante, seja pelo espetáculo de habilidade de gente que nunca havia pilotado aquilo e o fazia como se fossem profissionais, seja pelo inusitado da ação, pelo ruído que aquilo tudo fazia no silêncio da montanha, pelo gozadíssima que foi a ultrapassagem geral do guia na primeira curva, algo que me faz rir até hoje. Na noite, todo mundo sabia disso na cidade, o comentário era geral sobre os brasileiros malucos que haviam feito uma corrida de snowcats no Cerro catedral. E a galera, jantando com as famílias e amigos, todos preocupados com os, digamos, desdobramentos da sandice matinal.

Mas não deu nada, ficou só a adrenalina e o espetáculo incrível.

Pega na neve em Bariloche: o primeiro e único, mais uma conquista verde-amarela!