Beto Valle - SÃO PEDRO - Neve - Esportes de neve - Turismo de neve

Chapelco

Beto Valle – SÃO PEDRO
Chapelco

SÃO PEDRO

O grupo era grande, havia clientes de todo o Brasil, e a cidade escolhida para a skiweek era Chapelco, no início dos anos 90. Fazia tempo que não nevava, a cidade inteira fazia promessas para que viesse afinal a tal tormenta de Santa Rita, e quando fui para o aeroporto estava preocupado… ainda que todos soubessem da situação da montanha e pistas, ver e viver a falta de neve é bem diferente, e eu esperava uma semana difícil. Recebí o grupo, todos animados e felizes, contando da viagem e das peripécias nas conexões, fazendo perguntas sobre como andavam as coisas, correria atrás de malas, fotos de todos os lados, gente indo para banheiro e lanchonete – enfim, a chegada de um grupo de ski!

Entre eles, havia duas senhoras de São Paulo, irmãs, que estavam conhecendo tudo pela primeira vez: viajar de avião, entrar em outro país e outra língua, ver neve. Tudo era novo, e elas faziam perguntas sem parar. Vejam: sem parar, mesmo – eram duas máquinas de falar, intercalando suas histórias com indagações de todo o tipo. Rapidamente, o pessoal foi tomando aquela, digamos, distância gelada, e sobrou para mim, solito, dar conta do recado. Num determinado momento do segundo dia, encontrei a dupla na entrada da gondola, e uma delas me olhou, bem séria, e disse: ” beto, assim está muito ruim, quando vai nevar? “. Bem, não foi a frase, foi o jeito… ela estava me cobrando aquela nevada, o tom era de exigência urgente, não me restava outra hipótese senão o de conseguir nevar. Rí, constrangido, e expliquei que estava por acontecer a qualquer momento, o clima era assim mesmo, pois só Deus é que sabe mesmo, vai saber, tudo é possível, tenhamos fé. Ela aceitou, emburrada, minhas desculpas pela falta de neve, avisando que ia ficar de ôlho em mim. Sairam as duas, brabas, e eu subí na gondola sem saber se ria, ou ficava de mau-humor. Bem, eu não sabia que aquela era a primeira de uma série interminável de perguntas e reclamações sobre a neve, todas acompanhadas daquele olhar ressentido, eu não estava nevando, e pronto. Foram 3 dias (t-r-ê-s) em que elas me viam passar e gritavam a pergunta, era nos restaurantes e bistrôs, nos encontros nas lojinhas, nas pistas e cadeirinhas, em todo o lugar.

Todos riam da situação insólita, e me gozavam sem parar, apostando quando eu iria ter um infarte, um derrame, um ataque de caspas, enfim, algo que me livrasse daquilo.

E nevou. Muito, intensamente, sem parar. Começou na madrugada, de leve, e foi aumentando, virando uma tormenta das grandes, com flocos enormes caindo e deixando tudo branco. Festa na cidade, todos radiantes, eu em êxtase: a montanha me esperava, os clientes estavam felizes, e as duas irmãs teriam afinal sua tão esperada neve, eu estaria livre delas por um bom tempo. O café da manhã nas hosterias foi uma alegria só, todos falavam sem parar, preparando-se para o dia de pistas pela frente, era um momento muito feliz. As irmãs tiravam fotos do lado de fora, fazendo bonecos e bolinhas, aleluia. Fomos para o Cerro Chapelco, e o dia de ski começou. Estava difícil, as pistas pesadas por causa da neve recém caída e ainda não trabalhada com os tratores, e os flocos caindo, tirando muito da visão. Mas a alegria era total, todos esperavam muito por isso, e o resto da semana seria supimpa. Lá pelas 4 da tarde, canseira geral, entrei numa confeitaria e encontrei uma parte do grupo, que tomava chocolate quente e dava risada, é claro que sentei na hora para entrar no clima. Passados poucos minutos, entram elas… as irmãs, cobertas de neve, cansadas, sérias. Olharam para mim, com uma cara de repreensão, balançando a cabeça com desgosto, fiquei atônito. A irmã-superior pediu silencio ao grupo, com olhos e mãos, e declarou: ” beto, assim não dá. Quando vai parar de nevar?”.

Bah… só vou dizer que a coisa durou mais quatro dias, e eu sobreviví. Mais ou menos – alguns dizem que fiquei com sequelas, mas pode ser gozação… vai saber.